
Um texto caminho, Caístulo/Zelko ([2022] 2025)
Caístulo mora no território indígena wichí, entre o chaco e os yungas, numa comunidade de casas de adobe e náilon, sem eletricidade, junto a um pequeno monte rodeado de terra arrasada: monocultura, criação de gado, companhias petrolíferas e poeira. Aos oitenta anos, logo após o início da pandemia de Covid-19, entrou em coma no monte. Passadas onze horas, acordou e começou a cantar as mensagens transmitidas pelas mães, o que costumamos chamar de árvores. Foi a primeira vez que ele cantou. Nunca mais parou.
Nos encontramos quatro vezes entre 2020 e 2022. Fomos para o monte. Ele cantou em wichí lhämtes, a sua língua materna: gravamos. Depois, ele falou comigo no seu castelhano: escrevi à mão o que ele disse. Sem gravar. Toda vez que ele fazia uma pausa para inalar, eu passava para a linha seguinte.
Lemos em voz alta e corrigimos juntos.
Este livro traz de volta a sua voz, transformada em escrita durante esses encontros. Tem uma edição que circula dentro do território wichí e outra que é distribuída em qualquer lugar.
Dani Zelko